29 de janeiro de 2016

Esperas

Tantas vezes damos por nós a esperar por algo ou por alguém. Quer seja uma notícia, um resultado, um familiar que vem de visita ou uma amiga de longa data com a qual combinámos um café. Se pensarmos bem, grande parte da nossa vida é feita de esperas, até o simples facto de estarmos na via pública a desejar o aparecer do sinal verde é uma espera, quer sejamos condutores ou peões. Mas o que será que nos satisfaz mais? A espera em si, que faz crescer aquela inquietação interna, aquele aumentar do desejo do que aí vem? Ou o que acontece quando essa espera termina, quando já não necessitamos aguardar mais? É óbvio que não podemos analisar assim tão friamente estas questões, pois cada espera é diferente e constituída por inúmeros factores, mas talvez cada um de nós tenha uma inclinação diferente perante tal assunto.
Possivelmente o melhor consenso seja dizer que esperar por coisas boas nos satisfaz mais do que quando o findar da espera possa trazer algo negativo. Mas então, nessas situações soturnas, não é a espera um momento em que podemos abstrair-nos do que possa vir e focar-nos em algo melhor, dando-nos espaço para pensar que afinal o pior pode não estar para vir? Se criarmos esperança, então a espera torna-se maravilhosa, pois pior do que um desgraçado resultado é um sofrimento por antecipação.

22 de janeiro de 2016

Contemplação

Creio que qualquer pessoa que escreva por gosto ou profissão sabe que é necessário observar o mundo que nos rodeia, não só para termos ideias, como para percebermos o funcionamento deste universo complexo de relações e interacções, de inícios e fins, de partidas e chegadas.
A contemplação é necessária não só à nossa mente criativa, mas também ao nosso espírito. De que outro modo estaríamos em sintonia com a natureza deslumbrante do nosso planeta? Olhar à nossa volta e observar as árvores e os pássaros, enquanto sentimos o toque suave do sol no rosto, pode ser o necessário para dar calma à nossa alma e descanso aos nossos pensamentos.

15 de janeiro de 2016

Silêncio

No mundo de hoje em que o ruído paira no ar todos os dias, em que os nossos ouvidos captam sons que não fomos nós que escolhemos, em que por vezes vivemos tão perto um dos outros que o que dizemos não é privado, o silêncio toma outro gosto quando podemos desfrutar dele. Nada melhor do que uma manhã calma e soalheira em que os ecos na nossa mente sossegam com o chilrear dos pássaros de inverno. 

8 de janeiro de 2016

Globo de neve

Vieram timidamente
e sorrateiramente
começaram a dominar
o azul celestial.

Dizem que nenhum
tem igual,
que cada é obra
de arte criada.

O céu é secundário
para meus olhos agora.
As gotas brancas que caem
é só o que admiram.

Parece hoje o jardim
um globo de neve.
E eu observo-o,
de dentro para fora.

16 de junho de 2015

Cheira a verde

Gosto da maneira como o cérebro funciona ao nível das memórias. Por vezes basta um refrão de uma música para nos lembrarmos de um exacto momento da nossa vida. Por vezes uma fotografia transporta-nos até emoções vividas. Por vezes um mero odor coloca-nos num lugar há muito esquecido. E esse lugar nem é necessariamente físico, pode ser simplesmente emocional. 
Para mim, o simples odor de relva acabada de cortar, aquilo a que muitas vezes me refiro como "Cheira a verde", transporta-me à minha infância e àquele lugar no meu coração onde ainda não existiam preocupações. 

27 de maio de 2015

Confusão

As palavras giram num turbilhão cruzado por sentidos esquecidos e expressões recentes. Nada faz sentido. Nem uma bússola serviria para navegar neste imenso oceano de línguas sobrepostas. Quero-me expressar, mas não consigo. Parece mesmo que até já perdi o controlo sobre a língua com quem me tornei gente, que me deu as armas para enfrentar os mais variados desafios. Sinto-me confusa e certas vezes temo roçar a demência. Será só extrema análise dos acontecimentos? Ou será mesmo o perder de faculdades antes tidas como garantidas? Sempre pensei que a minha língua nunca me fosse falhar, mas mesmo tentando buscar nela a melhor expressão dos meus pensamentos, fico de mãos vazias tentando tocar nas profundezas da minha memória, sem nunca sentir nada entre os dedos. Impotência. Ser incapaz de articular com a clareza necessária que evita o constrangimento de querer falar e não conseguir. Parecer aos olhos e ouvidos dos outros um ser que ainda está a aprender a interligar pensamentos, sem porém ainda não se conseguir fazer entender. Frustração. Tristeza. Auto-flagelação. Terá tudo isto um final? 

26 de março de 2015

Cativeiro

Cresci como um animal em liberdade. Assim que podia saía de casa e ia para o meio das árvores, pisava a relva descalça, via o meu avô regar a horta e o meu pai a tratar dos animais. Nunca era hábito ficar muito tempo dentro de quatro paredes, até porque sendo criança e tendo uma terreno à minha disposição e dois cães para brincar era o paraíso. Era uma alegria vestir a roupa já gasta e suja para poder brincar à vontade com os joelhos na terra e as mãos nas ervas. Criar casas na seara com a minha irmã e só voltar para dentro do conforto do lar quando já os últimos raios de sol se tinham ido embora e nos deixado no lusco-fusco. Mas a vida decidiu mudar e o animal livre foi colocado em cativeiro. As horas passadas dentro de quatro paredes tornaram-se maiores e mais frequentes. Sabia onde encontrar árvores para me refugiar, mas não era o mesmo. O mundo seguro que conhecia desde criança estava inacessível, o espaço onde me podia perder e saber sempre o caminho para casa já não estava a uma simples porta de distância. O distanciamento foi crescendo, o cativeiro começou a apoderar-se e entretanto apareceu a cidade maior. Para minha surpresa consegui descobrir recantos naturais onde me sentia bem. Comecei a visitá-los, a familiarizar-me com eles, até que o tempo se tornou escasso, as responsabilidades se sobrepuseram e as visitas se tornaram cada vez menos frequentes. Agora que tenho pedaços de natureza à distância de um olhar, já não sei como me comportar, a minha alma ainda conhece a sensação de liberdade, mas o meu corpo já há muito se moldou ao cativeiro. Tenho de me ensinar de novo a explorar.